quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Meia






















Meia dúzia de meias socadas
Na gaveta, meia aberta

Soquete, meia suada
Para o futebol um meião
Meia do vovô, listrada
Boa pra circulação

Meia mole, meia dura
Tanto bate até que murcha
Na máquina de lavar
Meia velha
Meia hora
Meia avulsa

Meia furada, meia nova
Molha, mela, mete o pé
Meia-calça, meia sola

Minha meia é só chulé.


André Vargas

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Cajácaju





















Cajá
Venha cá já!
Pra eu te chupar
Me lambuzar
Até ficar
Só caroço

Caju
Rimar com tu
é perigoso!




André Vargas

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Saudade de ser lagarta





















Não aguento quando me dizem
que eu deveria me orgulhar
de um dia ter acordado
linda e podendo voar.

Eu não queria essas asas
por que, e para quem, eu preciso ser bonita?
nunca passei sequer um batom, nem nada
odeio estar colorida.

Não vou me adaptar
a ser só uma beleza que voa
eu tenho muito mais a falar
não é um simples voo que resume a minha pessoa.

Até de ser casulo eu gostava
eu tinha um papel crítico no mundo
eu era o nada que em si permanece
eu era o infinito calmo de um segundo.

Dentro de mim eu não me sinto linda
minha alma, hoje, não voa graciosa
eu só sou o por vir do meu "ainda"
e ainda posso ser danosa.

Saudade eu tenho é de ser lagarta
e de me arrastar, feia, como queriam, eu não ligo
mas eu era eu mesma na minha batalha
e era bem mais feliz comigo.

Tinha as minhas angústias, meu sonhos
tinha meus limites, minhas impossibilidades
não me etiquetavam, nem me estigmatizavam
e a minha imaginação voava bem mais à vontade.


André Vargas

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Mudança

















Eu queria botar toda a vizinhança
Em uma caixa de mudança
Só assim eu poderia ir para qualquer lugar do mundo
Sem deixar rastros de saudade.

Meus amigos, minhas histórias,
Meus tropeços, minhas glórias,
E, simplesmente, minha Glorinha
Numa caixa só para ela
Separada das outras vizinhas
Na caixa que for a mais bela.

As aventuras e as brincadeiras
Os momentos de descobertas
Esticavamos a tarde inteira
E essa caixa ficaria aberta
(Para que eu pudesse colocar outros achados em um canto, acomodados, no meio dessas tranqueiras, nos sonhos amontoados).

...
Mas tudo isso
os cheiros e gostos da rua
As cores da vizinhança
Só poderei levar em uma caixa
E ela se chama lembrança.





André Vargas

terça-feira, 9 de julho de 2013

Voltando a dizer bobices

É tanto tempo sem olhar com delicadeza
Que preciso de uma sobremesa
Para renascer das cinzas.

Passei um tempo só falando coisas sérias
Sérias e sem graças e velhas
De tão desconhecidamente sabidas.

Fique tão duro esse tempo
Que preciso de um rocambole
Preciso de uma maria mole...

Estou como uma formiga

Que aprendeu
Que é preciso guardar em estoque
O toque de sensibilidade
Que a idade não definha.


André Vargas